Serendipidade - uma ponte para a inovação

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Você já passou pela situação clássica em que, encurralado por um problema aparentemente insolúvel, tarde da noite, cansado após ter experimentado todas as hipóteses plausíveis de solução; desiste, resolve dormir e acorda com um insight brilhante ou uma solução quase mágica? Pois é, este elemento surpresa aleatório é fundamental quando falamos em inovação. Chamamos isto de Serendipidade.

Mas antes de explicar em detalhe o que é e porque este conceito é essencial para a resolução de desafios nos mais diferentes campos da criatividade, vamos a uma breve introdução:

Serendipidade é um anglicismo que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.
— Wikipédia

Origem

Deriva da palavra inglesa Serendipity, criada pelo escritor britânico Horace em 1754, a partir do conto persa infantil Os três príncipes de Serendip. A estória narrava as aventuras de três príncipes do Ceilão, atual Sri Lanka, que viviam fazendo descobertas inesperadas, cujos resultados eles não estavam procurando realmente. Graças à capacidade deles de observação e sagacidade, descobriam “acidentalmente” a solução para dilemas impensados. Esta característica tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom especial, mas por terem a mente aberta para as múltiplas possibilidades.

A história da ciência também está repleta de casos em que a serendipidade foi crucial para novos avanços e descobertas. Foi assim com a Eureka de Arquimedes, com a descoberta da penicilina por Alexander Fleming, com a constatação da eletricidade por Tales de Mileto e muitas outras inovações históricas. 

Cabe aqui uma ressalva para que não se confunda serendipidade com sorte ou coincidência. Não se trata de um acidente feliz ou de descobrir coisas sem estar procurando por elas. As inovações e descobertas feitas através dela foram produzidas por indivíduos capazes de criar "pontes" onde as demais pessoas só conseguem ver "lacunas". É o ligar eventos e fatos previamente estudados de uma maneira nova, criativa, intuitiva, com base na percepção de um vínculo significativo.

Por que precisamos dela para inovar?

A inventividade surge da justaposição de ideias muito distantes, e a relevância consiste em encontrar ideias semelhantes. A descoberta muitas vezes não passa da revelação de algo que sempre esteve ali, mas que estava oculto pelas viseiras do hábito.

A criatividade descobre, seleciona, reembaralha, combina e sintetiza fatos, ideias e habilidades preexistentes.

O aprendizado é, por definição, um encontro com o que não conhecemos, com coisas nas quais nunca havíamos pensado ou concebido, e que antes não compreendíamos. Para os pesquisadores que estudam inovação pela perspectiva evolutiva, este elemento de acaso aleatório não é apenas fortuito, é necessário. Ou seja, a inovação precisa da serendipidade.

Desde a década de 60, Donald Campbell, Dean Simonton e outros pesquisadores têm investigado a ideia de qie, no âmbito cultural, o processo de desenvolvimento de novas ideias é bastante parecido com o de novas espécies. O processo evolutivo pode ser resumido em quatro palavras: "variação cega, retenção seletiva". A variação cega é o processo pelo qual as mutações e acidentes modificam o código genético, e é cega porque é caótica - é uma variação que não sabe para onde vai. Não existe nenhuma intenção por trás dela, nenhum objetivo específico - é apenas a combinação dos genes ao acaso. A retenção seletiva é o processo pelo qual alguns dos resultados da variação cega - a prole - são "retidos", enquanto outros perecem. A ideia é que, quando os problemas se tornam suficientemente graves para um grande número de pessoas, a recombinação aleatória de ideias em milhões de cabeças tende a produzir uma solução. Na realidade, tende a produzir a mesma solução em muitas cabeças diferentes mais ou menos na mesma época.

O modo como combinamos ideias seletivamente nem sempre é aleatório, nós não tentamos resolver nossos problemas combinando cada ideia com todas as outras na nossa cabeça. No entanto, no que diz respeito às ideias realmente novas, a inovação de fato costuma ser cega.

Nos momentos de grande mudança, quando toda a nossa maneira de observar o mundo se modifica e é recalibrada, a serendipidade costuma estar presente. A descoberta cega é uma condição necessária para a revolução, por um simples motivo: os Einsteins, Copérnicos e Pasteurs do mundo frequentemente não fazem ideia do que estão procurando. As maiores inovações muitas vezes são aquelas que menos esperamos.

Como estimular a serendipidade e a inovação?

  • Observação é a palavra de ordem. Quando criamos o hábito de observar além do superficial para tudo o que nos cerca criamos uma nova relação com as coisas e estimulamos nossa criatividade, pois estamos constantemente desafiando nossos padrões e conceitos pré-estabelecidos.
  • Questione-se, pergunte sempre "E se?" e "Porque não?". Enxergar as coisas por um outro ponto de vista pode ajudar bastante a ter insights criativos.
  • Brinque. É sério! Nossa intuição e lúdica são muito importantes nos processos de inovação. Reaprender a brincar é, alem de tudo, saudável para a mente e para o corpo.
  • Seu ambiente de trabalho precisa propiciar a circulação de ideias e a criatividade. Escritórios formais, sóbrios e empresas com estruturas muito engessadas hierarquicamente dificilmente vão fomentar insights e ideias inovadoras. 

Portanto, daqui em diante você já sabe, boas ideias não dão em árvore e nem são fruto apenas de um surto criativo. É preciso muita pesquisa, dedicação, envolvimento e é claro, uma forcinha do imponderável...  

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